quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O Último Ano em Luanda

Durante as férias dediquei-me à leitura de "O Último Ano em Luanda" de Tiago Rebelo. Provavelmente, foi o livro dele que mais gostei de ler.
Pude conhecer um pouco mais sobre a história de Angola, as razões dos "retornados" terem regressado sem nada depois de tanto trabalho numa terra que já consideravam a sua, a força dos movimentos de libertação de Angola, a ineficácia da administração portuguesa, os interesses das potências, a razão de ter exército português no terreno, tantos assuntos da época do 25 de Abril que estavam envoltos numa nuvem e que depois desta leitura ficaram esclarecidos, porque eu não sou dessa época nem lá perto, só sei do que ouvi falar e do que li.
O livro é escrito com base em factos verídicos, com base na história do próprio autor e daí aproximar-se o mais possível da realidade que aconteceu.
Para quem não conhece bem esta parte da nossa história é importante ler este livro porque ajuda a compreender aquele período turbulento que se seguiu à Revolução do 25 de Abril, para perceber que nem tudo foram cravos nessa revolução e há partes da história convenientemente esquecidas nos discursos oficiais que se fazem sempre nas comemorações desse dia.
Em 1974, uma revolução em Lisboa apanha de surpresa centenas de milhares de portugueses que vivem em Angola. A partir desse dia inicia-se a derrocada imparável de uma sociedade inteira que, tal como um navio a afundar-se, está condenada à destruição e à ruína. Em escassos meses, trezentos mil portugueses são obrigados a largar tudo e a fugir, embarcando numa ponte aérea e marítima que marca o maior êxodo da história deste povo. Para trás ficam as suas casas, os carros e até os animais de estimação. Empresas, fábricas, comércio e fazendas são abandonados enquanto Luanda, a capital da jóia da coroa do império português, é abalada por uma guerra civil que alastra ao resto do território angolano. Três movimentos de libertação, cujos exércitos estavam derrotados a 25 de Abril de 1974, estão novamente activos e combatem entre eles pelo poder deixado vazio pelas Forças Armadas portuguesas. É neste cenário de total desorientação social e de insegurança generalizada que Nuno, um aventureiro que há anos atravessa os céus do sertão angolano no seu avião, Regina e o filho de ambos se movem, numa extraordinária luta para sobreviverem à violência diária, às perseguições políticas, às intrigas e traições que fazem de Luanda uma cidade desesperada. Esta é a história de coragem e abnegação de um casal surpreendido, tal como milhares de outros, num processo de degradação que se deve à recusa do Exército em defender os seus próprios compatriotas a favor de um movimento até há pouco inimigo, ao desinteresse dos políticos, à total incapacidade do governo de Lisboa para impor os termos de um acordo assinado no Alvor e constantemente violado em Angola e à intervenção militar das duas potências mundiais envolvidas numa guerra fria que é combatida por intermédio dos exércitos regionais.

1 comentário:

carla disse...

Ao ler este teu post emocionei-me.
Eu nasci em Angola. Eu passei por essa história também. Tinha 4 anos e ainda hoje recordo o momento em que comecamos a ouvir os tiros,depois os soldados na rua, pessoas a serem levadas, famílias ameaçadas, roubos... tivemos de sair de lá apenas com a roupa do corpo, foi mesmo como leste, abandonamos as nossas fazendas, os nossos bens, animais, ficamos separados de familiares e amigos... muito mais me lembro, muito mais há a dizer... esse livro merece a minha atenção, sem dúvida!

Obrigada por partilhares.

beijinho